|
Leia a matéria na integra.
A segunda derrota dos escravos de Queimado
As utopias da histórica e da cultural cada vez mais distantes
por Leonardo Picinati - abril de 2007
O Espírito Santo foi e continua sendo cruel com os escravos negros que
ajudaram a povoar e civilizar o Estado. No passado, eles foram presos,
arrastados, marcados com ferro, batidos, embarcados em viagens com condições
desumanas. Hoje, esquece-se a história deles – nas escolas, ruas e no âmbito
dos órgãos responsáveis pela preservação dos patrimônios históricos -.
Poucos sabem, mas a igreja São José do Queimado, um bem arquitetônico de
valor inestimável para a memória das rebeliões escravas no Brasil, está
definitivamente preste a desaparecer.
A
mata já cobriu quase tudo. No interior da igreja só há plantas. Das quatro
paredes e teto, só restam as duas laterais atadas por um cabo de aço. Aos
poucos a mata toma do homem o que ele tirou e não soube cuidar.
O Brasil tem problemas sérios de preservação da parte histórica. “O
brasileiro fala-se muito pouco de preservação de memória, de patrimônio”,
salienta a professora de História do Espírito Santo e do Brasil e
coordenadora do Projeto Saberes da Ufes (Universidade Federal do Espírito
Santo), Leonor Franco de Araújo. Para ela,
a educação patrimonial é uma disciplina fundamental nas escolas, “a memória,
os patrimônios culturais têm que ser preservados porque são eles que vão
formatar a identidade da população”, afirma.
Em 1999, a Secretaria de Turismo, Cultura, Esporte e Lazer da Prefeitura
Municipal de Serra apresentou ao público visitante a exposição
Iconográfica e Documental sobre a Insurreição dos escravos de Queimado,
como comemoração dos 150 anos da maior manifestação de escravos negros no
Estado do Espírito Santo. Hoje, Queimado é um Distrito da Serra. Possui uma
área de 77 quilômetros quadrados e fica a sudoeste. Já pertenceu a Vitória e
Santa Leopoldina. Passou a Distrito, em 27 de julho de 1846, pela resolução
n. 92. O nome Queimado vem do clima quente e das constantes queimadas na
região.
A igreja, ou o que resta dela, é um macro na luta dos direitos humanos no
Brasil. “A luta dos escravos negros não começaram ontem, com a assinatura da
Lei Áurea,
em 1888 ou os direitos dos
trabalhadores [carteira de trabalho], com
Getúlio Vargas, em 1943”, questiona Luciano Dias, 32, morador da Serra.
Insurreição
Ocorreu em 19 de março de 1849, durante a inauguração da igreja de São José
do Queimado. O Frei Gregório José Maria de Bene, missionário capuchinho
italiano, que era europeu e não admitia escravidão. O Frei queria construir
uma grande igreja na povoação de Queimado. Convocou os negros da região para
a construção da obra, com a promessa de que, posteriormente, intercederia
junto aos senhores para que fosse dada a alforria de cada um dos negros que
ali trabalhassem. Com a amizade que desfrutava com a Imperatriz do Brasil,
D. Tereza Cristina, oficiaria os documentos.
Segundo o escritor José Teixeira Leite, no livro História do Estado do
Espírito Santo – edição de 1975, os escravos foram caçados por habitantes
do distrito, Magaraí e Serra que auxiliaram os policiais de Vitória que
estavam sob o comando de Manoel Vieira da Vitória na captura dos negros.
Foram capturados 36 escravos. No julgamento, seis foram absorvidos, cinco
condenados à morte e os demais, 25, condenados a açoites. |
|