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A segunda derrota dos escravos de Queimado
As utopias da histórica e da cultural cada vez mais distantes

Veiculada no Jornal Tendência - Jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Faesa - Vitória/ES - nº 27 - maio de 2007.

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A segunda derrota dos escravos de Queimado

As utopias da histórica e da cultural cada vez mais distantes


por Leonardo Picinati - abril de 2007

O Espírito Santo foi e continua sendo cruel com os escravos negros que ajudaram a povoar e civilizar o Estado. No passado, eles foram presos, arrastados, marcados com ferro, batidos, embarcados em viagens com condições desumanas. Hoje, esquece-se a história deles – nas escolas, ruas e no âmbito dos órgãos responsáveis pela preservação dos patrimônios históricos -. Poucos sabem, mas a igreja São José do Queimado, um bem arquitetônico de valor inestimável para a memória das rebeliões escravas no Brasil, está definitivamente preste a desaparecer.
A mata já cobriu quase tudo. No interior da igreja só há plantas. Das quatro paredes e teto, só restam as duas laterais atadas por um cabo de aço. Aos poucos a mata toma do homem o que ele tirou e não soube cuidar.

O Brasil tem problemas sérios de preservação da parte histórica. “O brasileiro fala-se muito pouco de preservação de memória, de patrimônio”, salienta a professora de História do Espírito Santo e do Brasil e coordenadora do Projeto Saberes da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), Leonor Franco de Araújo. Para ela, a educação patrimonial é uma disciplina fundamental nas escolas, “a memória, os patrimônios culturais têm que ser preservados porque são eles que vão formatar a identidade da população”, afirma.


Em 1999, a Secretaria de Turismo, Cultura, Esporte e Lazer da Prefeitura Municipal de Serra apresentou ao público visitante a exposição Iconográfica e Documental sobre a Insurreição dos escravos de Queimado, como comemoração dos 150 anos da maior manifestação de escravos negros no Estado do Espírito Santo. Hoje, Queimado é um Distrito da Serra. Possui uma área de 77 quilômetros quadrados e fica a sudoeste. Já pertenceu a Vitória e Santa Leopoldina. Passou a Distrito, em 27 de julho de 1846, pela resolução n. 92. O nome Queimado vem do clima quente e das constantes queimadas na região.


A igreja, ou o que resta dela, é um macro na luta dos direitos humanos no Brasil. “A luta dos escravos negros não começaram ontem, com a assinatura da Lei Áurea,
em 1888 ou os direitos dos trabalhadores [carteira de trabalho], com Getúlio Vargas, em 1943”, questiona Luciano Dias, 32, morador da Serra.

Insurreição
Ocorreu em 19 de março de 1849, durante a inauguração da igreja de São José do Queimado. O Frei Gregório José Maria de Bene, missionário capuchinho italiano, que era europeu e não admitia escravidão. O Frei queria construir uma grande igreja na povoação de Queimado. Convocou os negros da região para a construção da obra, com a promessa de que, posteriormente, intercederia junto aos senhores para que fosse dada a alforria de cada um dos negros que ali trabalhassem. Com a amizade que desfrutava com a Imperatriz do Brasil, D. Tereza Cristina, oficiaria os documentos.

Segundo o escritor José Teixeira Leite, no livro História do Estado do Espírito Santo – edição de 1975, os escravos foram caçados por habitantes do distrito, Magaraí e Serra que auxiliaram os policiais de Vitória que estavam sob o comando de Manoel Vieira da Vitória na captura dos negros. Foram capturados 36 escravos. No julgamento, seis foram absorvidos, cinco condenados à morte e os demais, 25, condenados a açoites.

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Original © 2007 - Leonardo Picinati